Faleceu Miquel Martí i Pol



Martí i Pol faleceu no dia 11 de novembro de 2003, aos setenta e quatro anos, após uma grave e longa recaída proveniente da esclerose múltipla que o tomava já há muitos anos.

Breve introdução biográfica

Miquel Martí i Pol nasce em Roda de Ter ( Comarca de Osona - Catalunha) em 1929. Aos quatorze anos começa a trabalhar no escritório de uma fábrica de algodão em seu povoado (1943). No ano de 1948, com tuberculose, tira licença de um ano e passa a ler tudo aquilo que lhe cai nas mãos. Acaba entrando no mundo dos contos em 1952. No ano seguinte recebe o Premio Ursa Menor. Casa-se com Dolores Feixas, com quem terá dois filhos. Inicia a sua etapa pública (conferências, cine-foruns, etc), participa com sua voz na Nova Canção e colaborará na revista Oriflama ao mesmo tempo que inicia a sua participação em atividades políticas. Para sustentar a família, exercia simultaneamente o trabalho na fábrica, a poesia e as traduções literárias. Em 1972, entretanto, uma esclerose múltipla o obriga a deixar o trabalho fabril, aposentado-se por invalidez. Três anos depois, com a estabilização do quadro clínico, lhe é permitido voltar à arte literária. Também participa ativamente da revista Reduccions. Lhe é concedido o premio Lletra d'Or e no ano seguinte o premio Fastenrah (1977). Na década de 80 volta a participar de atos públicos. A Universidade de Barcelona lhe presta homenagem em 1982 e a Generalitat lhe outorga a Cruz de São Jorge (1983) e o premio de Honra das Letras Catalãs (19991). Inaugura o curso acadêmico 1998-1999 da Universidade Autônoma de Barcelona em 30 de setembro de 1998 com o tema "A Poesia, ainda" no qual, mais uma vez, fala da necessidade e da atualidade da poesia em nosso mundo.


Livros de Poemas

Ano Edição Título

1976: Porto la tarda recolzada al braç
1954: Paraules al vent
1957: Quinze poemes
1976: Si esbrineu d'un sol gest el secret dels meus versos, els heu arrabassat la meitat de la vida
1976: El Fugitiu
1966: El Poble
1975: La Fàbrica-1959
1976: He heretat l'esperança
1976: Autobiogràfia
1972: La Fàbrica
1972: Vint-i set poemes en tres temps
1976: Llibre sense títol
1974: La Pell del violí
1975. Cinc esgrafiats a la mateixa paret
1977: Llibre dels sis sentits
1976: Quaderns de vacances
1977: Crònica de demà
1978: Estimada Marta
1979: L'Hoste insòlit
1980: Les Clares paraules
1981: L'Àmbit de tots els àmbits
1982: Primer llibre de Boomsbury
1984: Cinc poemes d'iniciació
1984: Andorra (postals i altres poemes)
1985: Llibre d'àbsències
1985: Per preservar la veu
1987: Els Bells camins
1990: Temps d'interluni
1991: Suite de Parlavà/Algú que espera
1994: Un hivern plàcid
1997: Llibre de les solituds

LIVRO SEM TÍTULO

Se fosses terra, cresceria em ti
e daria frutos de rara doçura,
seria fiel aos caminhos que sulcam a tua pele
e aos rios secretos que atravessam tuas entranhas.
Se fosses mar, roubaria o vento
para te despertar com ecos longínquos.
Se fosses chuva, te receberia nú.
Se fosses bosque, amaria a tua sombra.
Somente tenho a ti. Covardemente
te invoco em plena noite com as mesmas
palavras de antigamente. A lua é amarelada
e absorve todo cerne de meus ossos. Tu retornas
como minha própria lembrança e escorre pelos meus dedos
ao chão, lentamente, o que restou dos tempos
vazios que vivi sem viver.
Agora é a hora vermelha dos guerreiros.
Marca com os dedos, suavemente, a cera nova.
Deita-te na terra, acolhe-me.
Sem a tua chama nenhum fogo me vivifica.
Volto a ti e os passos me ressoam,
como se inventa-se caminhos no interior de um claustro.


CADERNO DE FÉRIAS


Salvai-me os olhos quando já não restar nada de mim.
Salvai-me o olhar para que não se perca.
Qualquer outra coisa me doerá menos, talvez
porque é dos olhos que vem a pouca vida
que ainda me resta e é através deles que vivo
apoiado a um muro que se vai desmoronando.
Pelos olhos conheço, e amo, e creio, e sei,
e posso sentir, e tocar, e escrever, e crescer
até a altura mágica do gesto,
gesto que agora me devora metade da vida
e que a cada mote quero expressar o peso
deste corpo débil que já não me serve.
Pelos olhos me reconheço e me toco,
vou e venho por dentro da arquitetura
de mim mesmo, num esforço tenaz
de encurtar a vida e exauri-la.
Pelos olhos posso ir para fora e tomar luz,
tragar o mundo e amar donzelas,
desestruturar o vento e aquietar o mar,
colorir-me com o sol e encharcar-me de chuva.
Salvai-me os olhos quando já não restar nada de mim.
Viverei, bondoso e morto, somente com o olhar.


PÃO COM TOMATE


É uma benção sermos catalães
e comer um bom pão com tomate
com um toque discreto de azeite
e um pouco de sal, se precisar;
pão de camponês, se possível,
que é mais saboroso que os outros,
e tomate bem maduro, mas não demais.
É uma bênção uma lasca de pernil
ou lingüiça bem larga
para acompanhar o pão,
bem besuntado de tomate;
pernil fácil de mastigar,
lingüiça de Plana*,
pois nisto os osoneses**
tem muita tradição.
É uma bênção tudo o que eu disse
e bons amigos à mesa,
para compartilhar aquilo que comemos
e jogar conversa fora,
pois conversar com os amigos
sempre acaba trazendo o apetite
e a comida, se é compartilhada,
acaba sendo mais agradável.
* Plana: Planície em torno da cidade de Vic
** Osoneses: pessoas naturais da comarca de Osona, onde fica a cidade de Vic



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